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sábado, 14 de julho de 2012
























PEZINHOS DE FERRO

Há alguns dias tenho achado meu discurso
Uma alucinação tola e vã, frente à realidade dos fatos e das coisas
Ouço buzinas e ronco de motores lá embaixo nas ruas
e penso que devo parar
Ou o tempo pare antes...
E então eu não saberei mais voar
Ou o que fazer...
Isso é muito angustiante

No elevador
o cheiro de um perfume estranho
me remete a um tempo
em que tudo era feito de plástico

Na portaria do condomínio
uma loira sensacional, com roupas poucas
debruçada sobre o balcão
troca palavras doces com o seu Joaquim
Sobre a entrega de algum objeto
Algum presente talvez
E ele, por sua vez,
me olha de forma irada
Enquanto eu faço estas anotações...

À saída do prédio,
ainda do alto da seqüência de largos degraus
avisto estacionada uma bicicleta azul,
dessas de entregadores
de pequenas mercearias das redondezas
e que têm uma pequena caçambinha na frente
para levar as coisas

Estava estacionada de forma inclinada
na calçada em frente
apoiada por um fino pezinho de ferro

Na rua, as pessoas passam pra lá e pra cá
Afoitas, carregando pacotes, levando-os não sei aonde
Não sei por quê
Para quem são (?)
Menos para mim
Que fico calado, pedalando no ar
dando voltas no quarteirão

Imaginando como deve ser horrível ficar assim
a vida inteira escrevendo
palavras sem sentido
palavras raras, rarefeitas, 
refletidas apenas na própria 
cabeça espelhada

Achando tudo imperfeito,
relendo invertido o que escrevo
em papéis rotos
como asas arrancadas
de uma velha borboleta 
preta e amarela

Fingindo sentir tesão

como se fossem os versos
em voz baixa,
cabisbaixo, meu leito

Palavras técnicas, inflamáveis, difíceis, ininteligíveis,
Um texto padrão, esbelto, claustrofóbico

Apenas para me aproximar de um certo
padrão estético...

Aqui faz frio
A meteorologia diz que as temperaturas
cairão ainda mais nos próximos dias...
... ...