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O P re f i L





Bello Dunboss


...O cara era triste
Ainda às 4 da manhã de segunda-feira
Já estava se revirando na cama,
esperando a hora de ir para o trabalho.

Torcia para que o fim de semana terminasse logo.
Não sabia fazer outra coisa, a não ser, trabalhar!

E, pela manhã, lá estava ele em frente a repartição pública
As mãos enfiadas nos bolsos das calças,
Um palito entre os dentes,
Rolando-o pelos cantos da boca
Chapéu de feltro...
Bello Dunboss

Tudo o que ele queria
era servir
mostrar seu valor
ser reconhecido, mimado, desejado, imitado
Tudo o que ele de fato queria, ser rei
Tudo o que de fato, por dentro ele não era

Mas lá estava ele, límpido, impávido
Ao lado do chefe na foto
Ao lado do chefe na mesa, na escrivaninha
Ao lado do chefe no estacionamento
no restaurante, na alfândega
Em todos os lugares, como uma erva-daninha

Onde o chefe estivesse
Lá estava ele, Bello Dunboss
Era só tirar uma radiografia, um daqueles raios-x
E lá estava ele, grudado como chiclete
entre as pernas no rabo do chefe

O tempo está parando novamente
Começo a sentir calor
Afrouxo um pouco o colarinho
da camisa florida e o nó da gravata de bolinhas

Meu caso é outro
Eu sou diferente
Eu sou deficiente
Edward Dement

Eu sempre tive na cara esse ar de derrotado
Essa cara de quem não dormiu bem à noite
de quem fugiu de algum campo de concentração

Alguém que roubou as jóias da igreja
E as entregou aos pobres

Algumas pessoas têm os pés grandes
Os ombros largos, o peito peludo
Cara de cavalo e tudo mais
E 1,50 de altura, rabo de tatu
É o meu caso

Segunda-feira pela manhã, no elevador
senti o cheiro de sardinha em lata
Estragatta
Ou peixe morto, simplesmente, sei lá

Ainda meio tonto
Acordei às 11h e saí andando pela cidade
Andei o dia inteiro
E acabei vomitando para o mesmo lugar
O mesmo ponto de partida
De onde havia sido lançado
A uma velocidade inicial de 5 km/h às duas da madrugada
Em meio a um sonho, essa que é a verdade.